...
- Pai, você acredita em deus? Ele se surpreendeu com a minha pergunta.
- Você não acha um pouco pesado falar sobre essas coisas a essa hora do dia?- retrucou.
-Se realmente existe um Deus -continuei-, então ele adora ficar brincando de esconde-esconde com suas criações.
Meu pai riu da minha observação mas sabia que concordava comigo.
- Talvez ele tinha tido um choque quando viu o que tinha criado-disse ele-.E então saiu rapidinho de cena. Você sabe... é difícil dizer quem levou o susto maior, se Adão ou o Mestre. De fato, acho que um ato de criação dessa magnitude provoca um susto tão grande tanto numa parte quanto na outra. Mas acho que ele pelo menos poderia ter assinado rapidamente a sua obra-prima.
-Assinado?
-Sim. Ele poderia ter gravado o seu nome nas rochas de uma montanha, por exemplo.
-Quer dizer que você acredita em Deus?
-Não disse isso. Pode muito bem ser que ele esteja sentado em seu trono lá no céu, rindo de nós porque não acreditamos nele.
“Exatamente”, pensei. Meu pai já tinha feito um comentário parecido com esse lá em Hamburgo. E então ele prosseguiu:
-Pois mesmo que ele não tenha deixado nenhum cartão de visita, pelo menos deixou o mundo. Acho que isso já é o bastante você não acha? –Ficou calado algum tempo e disse:
-Certa vez, um cosmonauta russo e um neurocirurgião, também russo, discutiam sobre o cristianismo. O neurocirurgião era cristão, o cosmonauta não era.’ Já viajei várias vezes para o espaço sideral “ , gabou-se o cosmonauta “mas nunca vi nenhum anjo”. O neurocirurgião primeiro ficou olhando para ele; depois disse: ‘ E eu já operei muitos cérebros inteligentes, mas nunca vi um pensamento”.
-Você acabou de inventar isso agora? Perguntei.
Ele sacudiu a cabeça -Não...essa foi uma das piadinhas idiotas daquele professor de filosofia de Arendal. Com os olhos voltados para a fortaleza, meu pai disse:
-Não Hans Tomas, Deus está morto, E fomos nós que o matamos. Achei aquela afirmação tão incompreensível e desoladora que não quis entrar em detalhes sobre ela...
(...)
- Mas pense em todos aqueles Deuses: Apolo e Asclépio, Atena e Zeus, Posêidon e Dionisio. Durante muitos e muitos séculos, os gregos construíram templos caríssimos para esses deuses. Pense nas distâncias enormes que tinha de percorrer arrastando aqueles pesados blocos de mármore.
Eu não estava entendendo muito bem do que o meu pai estava falando. Apesar disso perguntei:
- Como você pode ter tanta certeza de que esses deuses não existiram mesmo? Pode ser que agora eles estejam desaparecidos, ou que encontraram um outro povo de tão boa-fé quanto os gregos. Mas houve um momento em que eles andaram aqui pela terra.
Meu pai me olhou pelo espelho retrovisor.
-Você acredita mesmo nisso, Hans Thomas?
-Não estou bem certo – respondi. Mas acho que de alguma forma eles estiveram aqui na terra enquanto as pessoas acreditaram neles. Acho que a gente vê aquilo em que acredita. Por isso é que, enquanto as pessoas não duvidaram da existência deles, eles não envelheceram nem ficaram gastos ou puídos...
( O dia do Curinga - Jostein Gaarder )