segunda-feira, 27 de outubro de 2008


Quando danço, sou uma mulher livre. Melhor dizendo, sou um espírito livre, que pode viajar pelo universo, olhar o presente, adivinhar o futuro, transformar-se em energia pura. E isso me dá um imenso prazer, uma alegria que está muito mais além das coisas que já experimentei, e que terei que experimentar ao longo de minha existência. Mas não se pode escrever sobre a dança. É preciso dançar. -Exato. No fundo, as anotações diziam apenas isso: dançar até a exaustão, como se fôssemos alpinistas subindo esta colina, esta montanha sagrada. Dançar até que, por causa da respiração ofegante, nosso organismo possa receber oxigênio de uma maneira que não está acostumado, e isso acaba por fazer com que percamos nossa identidade, nossa relação com o espaço e o tempo. Dançar ao som de percussão apenas, repetir o processo todos os dias. Entender que em determinado momento os olhos fecham naturalmente, e passamos a enxergar uma luz que vem de dentro de nós, que responde as nossas perguntas, que desenvolve nossos poderes escondidos. - Sabe o que descobri? Que embora o êxtase seja a capacidade de sair de si mesmo, a dança é uma maneira de subir ao espaço. Descobrir novas dimensões, e mesmo assim continuar em contato com seu corpo. Com a dança, o mundo espiritual e o mundo real conseguem conviver sem conflitos. Acho que os bailarinos clássicos ficam na ponta dos pés porque estão ao mesmo tempo tocando a terra e alcançando os céus. Que eu possa me lembrar estas foram as ultimas palavras. Durante qualquer dança à qual nos entregamos com alegria, o cérebro perde o seu poder de controle, e o coração toma as rédeas do corpo. Só neste momento o Vértice aparece. Desde que acreditemos nele, claro. Trechos do livro: A bruxa de Portobello, de Paulo Coelho.